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Descubra o que é, como identificar e, sobretudo, como lidar com a síndrome do impostor, livrando-se plenamente da confusão de autopercepção

“Será que sou uma fraude?” Esse costuma ser um pensamento frequente de quem sofre com a síndrome do impostor. De acordo com uma pesquisa desenvolvida pela psicóloga Gail Matthews, da Universidade Dominicana da Califórnia (EUA), a síndrome do impostor atinge 70% das pessoas bem-sucedidas. Até personalidades norte-americanas já falaram abertamente sobre suas experiências com o assunto, como a ex-primeira dama Michelle Obama, o ator Tom Hanks, e a poetisa e figura influente da cultura afro-americana Maya Angelou.

Trata-se de um padrão de comportamento impregnado pelo sentimento de não ser bom o suficiente naquilo que faz, duvidando das próprias realizações e capacidades. Quase como viver sob o espectro da crença de não merecer ou de não pertencer ao espaço onde se está. Todos nós, enquanto profissionais, já nos sentimos vulneráveis e inseguros pelo menos uma vez ao longo da jornada; mas a síndrome do impostor se caracteriza pela alta recorrência do considerar-se  um “charlatão” e subestimar a si mesmo.

“Por que me sinto um impostor?” Podemos associar a situação à baixa autoconfiança na construção da carreira,  à forte autocrítica sobre o próprio trabalho e ao raso autoconhecimento no momento de avaliar adequadamente desafios e objetivos profissionais. Apesar de não ser exatamente uma doença — sem Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) própria —, o estado psicológico carregado de culpa e inferioridade pode prejudicar a saúde física e mental, além de travar as chances de obter êxito. A boa notícia é que superar a sensação de fraude é perfeitamente possível.

Veja a seguir como identificar a síndrome do impostor, reconhecendo o que leva ao estado de inadequação e assumindo comportamentos em direção a uma carreira feliz e gratificante.

Como reconhecer a síndrome do impostor?

Foto do professor Edgar Pereira Júnior, professor e mestre da FAE Business School
Professor Edgar Pereira Júnior

Para o professor mestre da FAE Business School Edgar Pereira Júnior, o indivíduo que sofre da desordem de autopercepção chamada síndrome do impostor assume uma postura caracterizada pela visão de que não é merecedor do que lhe é positivo, de que os outros são melhores e de que suas conquistas são fruto da sorte, do acaso ou, ainda, nem podem ser consideradas feitos relevantes.

Geralmente, tem pensamentos disfuncionais sobre os eventos, o que indica sua fragilidade de autopercepção e distorção da realidade”, explica. Segundo Júnior — que na escola de negócios leciona as disciplinas Psicologia Organizacional e Pesquisa e Produção Científica em Psicologia, entre outras —, atitudes de descontrole emocional, ansiedade, medo constante do fracasso e vergonha de exposição podem ser frequentes.

Como identificar a síndrome do impostor?

Nossas emoções e comportamentos são consequências da maneira como percebemos e interpretamos os fatos — ou seja, como pensamos e em quê acreditamos. De acordo com Júnior, o primeiro passo para lidar com a síndrome do impostor é avaliar o nível de racionalidade e de validade com que nos percebemos.

É importante avaliar se o estado emocional é desproporcional, como sentir um alto estresse antes de uma apresentação simples de trabalho, por exemplo”, diz, sugerindo que a frequência de situações nas quais não sabemos lidar com nossos erros e frustrações pode servir de gatilho para a síndrome do impostor, assim como a exposição a ambientes de pressão ou contextos de crise.

A presença de sentimentos paralisantes ou de insatisfação com a própria carreira também são possíveis indicativos. “Além disso, negar oportunidades de crescimento e procrastinar tarefas se tornam hábitos. Para aquele que se considera incompetente de forma disfuncional, mesmo uma situação rotineira simples pode ser fonte de estresse.”

Creio que, com o contexto desfavorável da pandemia, mais gente se sinta vulnerável. Estamos vivendo o que tem se chamado de mundo Bani (mundo frágil, ansioso, não linear e incompreensível).

 Isso nos traz uma dimensão de menor controle e segurança que pode desencadear com mais frequência sentimentos e pensamentos associados à síndrome do impostor”, reflete ele.

Atuando na orientação de carreira e na atração e captação de talentos (presente na grade curricular do curso de Administração da FAE), Júnior acompanha frequentemente casos de profissionais que se veem inseguros diante da possibilidade de conquistar seus objetivos, de compreender com clareza suas competências e de identificar que há sempre caminhos para o desenvolvimento — características de quem sofre da síndrome do impostor. “O receio é serem vistos pela perspectiva da ‘fraqueza’ diante das exigências do mercado.”

Veja a seguir gatilhos comuns que despertam a síndrome do impostor e confira dicas do professor da FAE para controlar a sensação de fraude.

Gatilhos que desencadeiam a síndrome do impostor

    • Busca por perfeccionismo, situações de fracasso, ambientes de grande pressão ou crise;
    • História de vida com frustrações ou situações estressantes — a origem da síndrome pode ser multifatorial;
    • Redes sociais, contexto em que a grama do vizinho é sempre mais verde: ao ver o sucesso “vendido” pelos demais no Instagram e no LinkedIn, muitas vezes nos comparamos e desejamos realidades enganosas de felicidade e capacidade absolutas.

Dicas para controlar a síndrome do impostor

  1. Buscar ajuda especializada: para expressar as angústias relacionadas, uma avaliação diagnóstica mais precisa e um acompanhamento próximo são indispensáveis. Pela caracterização da síndrome, um atendimento psicoterapêutico com base em psicologia cognitiva comportamental pode trazer resultados de forma breve, com conscientização sobre o padrão de pensamentos e elaboração assertiva do enfrentamento.
  2. Orientação de carreira: uma mentoria ajudará o sujeito a analisar o histórico da construção de seu trabalho. Ele encontrará elementos que podem delinear caminhos de percepção sobre si mesmo, além de exigências do mercado e novas trajetórias para a carreira.
  3. Ações de rotina: busca contínua por feedback para validar conceitos disfuncionais e por atividades que levem a um conhecimento mais fundamentado de suas competências e realizações.
  4. Fortalecer a inteligência emocional: fazer cursos (especializações) relacionados ou participar de grupos de discussão sobre a síndrome do impostor também são estratégias para lidar com a questão.

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