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Autor: Cláudia Machado

Vemos cada vez mais mulheres na liderança, mas ainda há muito a avançar, sobretudo na liderança feminina no mundo corporativo.  Liderar é um ato político na essência da palavra, uma posição plural que pressupõe colaboração, comunicação, humildade, visão estratégica, conexão e autodesenvolvimento. Uma escolha de quem assume riscos para que a inovação aconteça, pessoas se desenvolvam, negócios prosperem e, em última instância, uma sociedade inteira se fortaleça. Apesar de já ser uma realidade, a liderança feminina ainda encontra muitos obstáculos, especialmente pela falta de representatividade. Um fato nos coloca frente a um enorme desafio: dados de 2015 da McKinsey, empresa de consultoria empresarial norte-americana, apontam que 12 trilhões de dólares podem ser adicionados ao PIB global até 2025 se as diferenças de gênero forem reduzidas.  Em outro estudo sobre diversidade no local de trabalho, mais recente, a diversidade como alavanca de performance reafirma a relevância universal do vínculo entre diversidade — definida como uma maior proporção de mulheres e uma composição étnica e cultural mais variada na liderança de grandes empresas — e performance financeira superior.  Porém, para alcançarmos esse patamar, é preciso avançar. Você saberia dizer quais são os maiores desafios da liderança feminina? Barreiras como preconceito, sexismo, dupla jornada de trabalho (profissão x maternidade e afazeres domésticos) e a autopercepção de inferioridade frente aos homens, por parte de muitas mulheres, podem ser apontadas como grandes influenciadoras desse cenário. Falar abertamente sobre o tema é um dos aspectos mais importantes para a mudança, seguido de ações — a exemplo do movimento “He for She”, da ONU Mulheres Brasil, e programas de especialização sérios e responsáveis (como o de Liderança e Inovação Estratégica, oferecido pela FAE Business School).

Liderança feminina no Brasil e no mundo x cultura patriarcal

Historicamente, as mulheres vivem à sombra dos homens nos âmbitos familiar e corporativo, em posições servis. Nessa perspectiva, o posto mais alto de comando vem sendo definido em termos masculinos. Em 2003, estudantes de administração de cinco países (EUA, Reino Unido, Alemanha, China e Japão) desenvolveram uma pesquisa batizada de “Think manager – think male” (em tradução livre, “Pense um gerente, pense um homem”) que revelou o tamanho do problema: de acordo com o resultado à época, mulheres apresentavam menor probabilidade de possuírem características de liderança em relação a homens. Mesmo com todas as transformações legais, sociais e organizacionais, até então e em pleno século XXI, o sucesso profissional ainda estava fortemente associado ao sexo masculino. De lá pra cá, 18 anos se passaram. Podemos dizer que avançamos rumo a mais mulheres na liderança?
Professora Cláudia Cristina Machado - Coordenadora de Pós Graduação da FAE Business School
Professora Cláudia Cristina Machado – Coordenadora de Pós Graduação da FAE Business School
Para a coordenadora de pós-graduação da FAE, Claúdia Cristina Machado, os homens ainda têm o benefício de salários mais altos e progressões mais rápidas de carreira. Além do tempo dedicado aos filhos ser visto como um empecilho para mulheres, outro inibidor apontado por pesquisas mundo afora inclui a aparência pessoal. “Infelizmente, ainda há uma associação equivocada entre a promoção no trabalho e os atributos físicos femininos, bem como uma relação entre beleza e burrice, o que acentua episódios de assédio moral e sexual”, observa. Contudo, para Claúdia, todas essas questões não devem servir para nos paralisar. “Ao juntarmos competências femininas e masculinas estamos tornando os ambientes mais criativos, equilibrados e prósperos”, aponta. Segundo a professora, é urgente que as instituições se abram, mas isso não deve ser um ponto externo às mulheres. “Não precisamos e nem devemos esperar que entendam a importância da liderança feminina, temos que fazer isso acontecer buscando desenvolvimento e capacitação.”

Por mais mulheres na liderança

Não raro, a conquista de posições de destaque por mulheres é atribuída a facilitadores que, de certa forma, deslegitimam suas capacidades, tais como políticas de diversidade nas empresas. Ao que tudo indica, por trás dessa discriminação estão pensamentos equivocados. “Somos consideradas mais comunais, portando traços como empatia e bondade, enquanto homens são mais agênticos, manifestando confiança, agressividade e autonomia”, cita. Pautada nas observações da pesquisadora brasileira Maria Amorim Viana, a coordenadora da FAE prossegue desmontando paradigmas que, felizmente, estão dando lugar a novas oportunidades e dinâmicas profissionais. “Temos a mesma habilidade de liderar e nos sobressairmos por meio de uma atuação reconhecidamente mais neutra, o que funciona como inibidor do preconceito por parecer incompatível com a visão tradicional de mulher gentil e do líder enérgico”, diz. Para Claúdia, essas habilidades são intensificadas para que as mulheres, apesar de terem menos chances de ascensão a cargos de liderança, possam chegar lá. A boa notícia é que, em um contexto cada vez mais digital e globalizado,  as soft skills associadas ao feminino — como empatia, conexão, coragem e vulnerabilidade — estão no topo da lista de tendências apontadas pelo Fórum Econômico Mundial. “Isso enche de esperança o cenário do protagonismo feminino nas organizações globais.”

Como empoderar a liderança feminina

A ideia de que a liderança feminina fica aquém da masculina vem sendo diariamente questionada, e a tecnologia tem sido um divisor de águas. Novos modelos de negócios vêm surgindo juntamente com o ajuste no mindset das corporações, desde as mais tradicionais.  “Start-ups como a Uochi, que está sendo desenvolvida nos corredores da FAE, chegam para facilitar a limpeza doméstica que continua a existir, por exemplo. Em perspectiva adicional, horários mais flexíveis de trabalho e com atuação home office estão sendo acelerados pela pandemia”, analisa Cláudia Na outra ponta, a possibilidade de creches nos escritórios, por exemplo, é mais um agente facilitador para mulheres rumo à posições-chave. “A guinada macro, todavia e infelizmente, não se dará de forma igualitária nas diferentes camadas socioeconômicas. Uma mudança paradigmática está em curso, mas precisará de tempo para se consolidar como prática cultural.”

Liderança feminina na política

A política, entendida como capacidade do ser humano de criar diretrizes com o objetivo de organizar seu modo de vida e promover o bem público, está carente da figura feminina nos altos escalões. Em 2020, no Brasil, de acordo com o Instituto Update, menos de 15% das mulheres ocupavam espaços de tomada de decisão política. “Podemos analisar os impactos desses índices a partir da frase de Michelle Bachelet, que comandou o Chile por oito anos não consecutivos: ‘uma mulher na política muda a [própria] mulher. Muitas mulheres na política mudam a política”, pontua. De acordo com Claúdia, ao juntarmos essas afirmações identificamos um quadro desfavorável não só para as mulheres, mas igualmente negativo sob o ponto de vista da qualidade da democracia brasileira. Ano passado, a pesquisa “As prefeitas brasileiras e os partidos políticos”, encomendada pelo Instituto Alziras — entidade não-governamental que estuda a participação feminina na política —, revelou que 70% das filiadas não se sentem representadas nos postos decisivos de suas legendas. As principais causas apontadas são: falta de apoio do próprio partido, dificuldades no financiamento de campanhas e acúmulo de afazeres, divididos entre política e rotina do lar. “O compromisso em dobro prende as filiadas às tarefas domésticas por muito mais tempo”, reflete. Por fim, Claudia deixa um importante recado: “As mulheres, que já conquistaram tanto desde 8 de março de 1909, podem assumir uma abordagem mais questionadora sobre seu próprio posicionamento. Isso pode passar pela promoção de debates públicos e pela maior candidatura aos postos públicos.”

Como vencer os desafios da liderança feminina

A ciência de um quadro menos desigual para as mulheres, nas organizações e na política, é importante, mas não suficiente. Por isso, para Cláudia, a transformação passa necessariamente pelo autodesenvolvimento.  “A posição vitimista não faz parte do repertório de habilidades femininas”, diz. Seguindo a linha de raciocínio, a também consultora explica que liderança não é uma característica inata de poucos privilegiados, mas sim uma competência a ser desenvolvida. “Trata-se de querer crescer em conhecimento próprio e em humanidade.” A FAE Business School, reconhecida por sua excelência em desenvolvimento de líderes, apresenta grandes oportunidades para todos que desejam ser líderes. O curso de pós-graduação em  Liderança e Inovação Estratégica é apenas um dos que se propõem a ajudar o desenvolvimento de lideranças nos novos negócios e mercados que se abrem a partir da quarta revolução industrial. “A disciplina faz parte de um grupo de especializações que conduzem o participante pela jornada da transformação interpessoal e da liderança. Ao escolher o caminho de uma especialização, no entanto, é importante observar a seriedade com que a instituição trabalha o tema e a metodologia que usa diante da forma com que adultos aprendem (andragogia)”, esclarece.

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