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O mercado está evoluindo quase na velocidade da luz. O que fazer para acompanhar?

Define-se como sorte uma força invencível à qual se atribuem diversos rumos e acontecimentos da existência humana. Como você já deve estar pensando, contar unicamente com os desígnios do destino para avançar na carreira e na vida pessoal é bastante arriscado. Deixar que esses dois pilares corram soltos, sem objetivos claros — tanto de longo quanto de médio e curto prazo — já não é algo desejável há algum tempo. Nos dias atuais, é quase como se condenar a ser um azarado.

Quando começamos a justificar nossas lacunas com questões externas, acabamos agindo como vítimas das circunstâncias ao invés de sermos protagonistas da nossa própria história. Uma estratégia contraproducente. Por isso, ter metas palpáveis e cumprí-las torna-se um pré-requisito fundamental para investir em si mesmo e obter sucesso.

Imagem do Professor José Vicente B. Mello Cordeiro - Diretor de Pós-Graduação da FAE
Professor José Vicente B. Mello Cordeiro

Em termos de mudanças de hábitos e de práticas, less is more. De acordo com o diretor de pós-graduação da FAE, José Vicente Cordeiro, parar de planejar grandes passos que acabam sendo adiados e começar a encurtar percursos é uma ótima maneira de tomar a iniciativa e investir em si mesmo. “Quando adiamos constantemente os planos, seja por falta de tempo ou de dinheiro, perdemos a confiança em nós. Nosso cérebro entende que somos procrastinadores, que não executamos o que planejamos. Por isso, buscar ‘quick wins’ e celebrá-las é o ponto de partida para o avanço.

Uma dica que eu costumo dar é: se o entrave for não ter condições financeiras, esqueça aquele curso caro de pagamento inviável e opte por disciplinas isoladas ou extensões de curta duração. Se ainda não der, invista em bons livros e consuma conteúdos em vídeo que façam sentido. Só não deixe de se capacitar e, principalmente, de praticar”, afirma. Em um mundo com tantas opções de escolhas, ter um propósito claro (não necessariamente espiritual) e utilizá-lo para guiar suas prioridades é fundamental.

Calma! Sabemos que isso não se conquista da noite para o dia. “Mais do que uma frase de motivação, investir em si mesmo com foco e determinação é uma competência a ser desenvolvida, assim como a autoresponsabilização”, orienta.

É o que veremos adiante!

Se tudo muda, qual a importância de planejar o futuro?

Para Cordeiro — que possui mais de 25 anos de experiência como gestor, executivo, professor, consultor e palestrante —, quanto mais planejarmos, mais precisaremos de dados e informações recentes sobre a área de atuação na qual estamos inseridos. Consequentemente, ficamos a par das mudanças mais rapidamente. “Aumentaremos as chances de descobrir uma nova função ou papel que esteja mais adequado aos nossos interesses”, detalha.

Porém, como acompanhar as constantes mudanças? O doutor em engenharia de produção dá o caminho das pedras. “Leia conteúdos de qualidade, participe de grupos de discussões, vá a eventos, assista as lives e mantenha contato com outros profissionais de destaque. Sim, networking é crucial! Não tenha vergonha de pedir a opinião dos mais experientes sobre os rumos do mercado.” Antigamente, segundo ele, planejar a carreira era sinônimo de elaborar um plano a cada cinco anos, aproximadamente. No entanto isso mudou. “Agora, tem de ser anual e até mesmo em prazos menores, toda vez que ocorrer algo com o o potencial de mudar o panorama e afetar suas metas. E essa revisão vale, inclusive, para o nosso propósito. Ele precisa ser algo vivo e que nos faça feliz.”

Como avançar na carreira? Estude e pratique

Mesmo que você consiga as condições de tempo e dinheiro para fazer uma pós-graduação, se não tiver meios de colocar em prática o que está sendo visto, não terá um resultado tão produtivo. Com os objetivos bem alinhados e definidos, todo e qualquer investimento passará a ter um contexto que permitirá colher frutos no futuro. “Investir em cursos de autoconhecimento, como os que incluema prática do mindfulness, trará uma reflexão importante e decisiva sobre o que virá em seguida”, pontua. Quanto mais cedo se parar para fazer tal reflexão, melhor. “Ela pode ser um pouco demorada. Deve-se levar em conta o que a pessoa valoriza e vê com importância e, principalmente, o que ela sabe fazer muito bem. Com isso, as chances de sucesso irão aumentar”, recomenda, lembrando que a FAE oferece um “cardápio” de disciplinas isoladas que enfatizam bastante esse processo, como Autogerenciamento de Vida e Carreira e Integral Leadership.

Aprender fazendo e valendo-se da realidade do mercado é algo fundamental nas matérias oferecidas na grade curricular da instituição, inclusive as lecionadas pelo professor. Diante das atuais demandas, isso tem sido levado ao extremo. “Seja um problema de logística, uma tomada de decisão estratégica, um processo na justiça ou mesmo um caso clínico de psicologia… Todas as disciplinas da FAE enfatizam a solução de problemas reais”, esclarece. “A ideia”, continua Cordeiro, “é aplicar os conteúdos vistos nessas situações com a mentoria dos professores e tendo o retorno das organizações. Uma parte menor da abordagem é vista em sala de aula, seguida pela prática com feedbacks vivos. Esse é o aprendizado real que determina a capacidade de entrega do aluno”, defende.

Anote aí: para resolver problemas corporativos reais é preciso uma teoria sólida e consistente, mas que tenha continuidade e espaço fora do ambiente acadêmico. “A teoria sozinha não leva a lugar nenhum. Por outro lado, a prática sem teoria é sinônimo de mediocridade. O verdadeiro aprendizado, mesmo que baseado exclusivamente na prática, é aquele que permite ao aprendiz formular uma ideia. Toda inovação baseia-se no desenvolvimento de uma nova teoria.

Como escolher a melhor especialização

Atualmente, é muito importante que se distinga uma formação de verdade da capacitação para exercer determinadas atividades específicas. “Uma boa graduação, muitas vezes independentemente da área, irá oferecer uma ampla gama de opções de trabalho ao profissional dependendo de habilidades que ele desenvolver depois”, analisa o professor. Para exemplificar, ele menciona uma função que possui demanda elevadíssima nos dias atuais, que é o caso do especialista ou gestor em transformação digital. “Configura-se como o responsável por planejar e implementar a digitalização de processos nas empresas. É uma posição-chave na interface entre tecnologia e negócios e, mais do que entender de hardware e software, deve ser capaz de conduzir processos de ajuste de mindset, mudanças culturais que alteram a base dos valores compartilhados.”

Hoje, muitos querem ocupar essas posições, mas a forma de se capacitar e de se preparar para isso vai variar dependendo do perfil da pessoa e do seu repertório anterior. Cordeiro detalha que para formados nas áreas de Ciências da Computação, Processamento de Dados e engenharias em geral, o foco dessa capacitação certamente deverá recair sobre a compreensão de estratégias, de modelos de negócios e de habilidades sócio-comportamentais. Por outro lado, quem tiver formação em Administração de Empresas, Economia e Ciências Sociais ou Humanas deverá dar mais ênfase às questões relacionadas à tecnologia. “Um dos pontos fortes da FAE é que esses dois perfis distintos poderão cursar a pós intitulada Gestão em Transformação Digital, complementando as grades com suas principais lacunas. O importante é que qualquer que seja a formação desses indivíduos, eles terão que perseguir o ideal de aprender e desaprender o tempo todo. Esse é o mundo do lifelong learning.”

Como aplicar o Lifelong learning

Partindo de uma premissa muito simples, de que o aprendizado nunca acaba, o conceito de lifelong learning citado por Cordeiro denota um ponto decisivo na jornada do profissional do presente: as novas posições, aquelas mais valorizadas, estão demandando conjuntos de capacidades que não eram ensinadas até então e que, por isso, exigem um aprendizado contínuo da parte de quem desejar conquistá-las. “Para aqueles que estão começando agora, recomendo fortemente que busquem ingressar em faculdades que lhes permitam ter experiências diversas e profundas, a fim de construírem uma sólida base sobre a qual seguirão fortalecendo as competências mais necessárias em diferentes momentos de suas carreiras”, aconselha.

Muito tem se falado sobre a tendência de apostar na área Stem (Science, Technology, Engineering & Math) em detrimento das social sciences ou liberal arts. Justifica-se que, dessa forma, é possível ter acesso aos melhores salários, mas não é o que se vê em grande parte das mais bem sucedidas startups do mundo. Scott Hartley, um renomado Venture Capitalists, graduado em ciências políticas por Stanford e autor do livro “The Fuzzy and the Techie: Why the Liberal Arts will Rule the Digital World” (na publicação em português, The Fuzzy and the Techie: Por que as artes liberais irão governar o mundo digital), é categórico ao dizer que “a era digital e da inteligência artificial irá demandar tanto engenheiros quanto filósofos”. Além disso, o último relatório do Fórum Econômico Mundial aponta que 7 das 10 principais skills do profissional do futuro são habilidades comportamentais. Ou seja, há espaço para todos na interface entre tecnologia e negócios.

“Temos de ter em mente que esse processo terá sempre dois extremos distintos. A atualização profissional e a ‘reinvenção’, aquilo que tradicionalmente se denominou ‘Redirecionamento de Carreira’, e, entre elas, um continuum de diferentes graus de modificações na jornada do indivíduo”, detalha. Dentre essa atualização constante debatida pelo consultor, destacam-se:

  • Uma boa dose de autodidatismo: ler artigos da área de atuação e científicos, conferir palestras relevantes, frequentar cursos de curta duração ou buscar certificações;
  • Manter-se competitivo: de tempos em tempos, fazer uma especialização, pós-graduação, MBA e/ou estudar no exterior;
  • Estar atento às tendências: obviamente, não existe uma linha demarcando a fronteira entre a atualização e a reinvenção. Por isso, é preciso prestar atenção nas novidades para saber quando será necessário algo maior do que apenas um curso de atualização;
  • Lidar com a disrupção: a própria área de atuação do profissional pode deixar de existir e, ao mesmo tempo, uma nova oportunidade pode surgir e se tornar bastante atrativa. Exemplo: posições alteradas pela migração do marketing off-line para o on-line. Os profissionais mais atentos trataram de se reciclar para pegar carona em atividades como “User Experience” ou “Analista de Dados” — mergulhando em Big Data;
  • Mudar de função: a passagem de uma função eminentemente técnica para uma de liderança formal é um caso típico. A pessoa irá precisar de uma nova formação, por mais gradual que seja a passagem de líder de si mesmo para líder de outras pessoas. E, de fato, a cada nova mudança no “pipeline” de liderança — de líder de pessoas para líder de líderes, de líder de líderes para líderes de negócios, de líderes de negócios para líderes de organizações —, novas formações serão demandadas;
  • Entender que não se trata de opção: todas essas movimentações do mercado não são projeções. Elas já estão acontecendo e em ritmo acelerado.

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