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“O mundo vive uma crise de liderança”. Essa é uma das constatações do diretor da Pós-Graduação da FAE Business School, José Vicente Bandeira de Mello Cordeiro. E não é difícil de detectar essa conjuntura: basta analisar como alguns países lidaram com a crise da pandemia do novo coronavírus. Na avaliação do professor, poucas nações estabeleceram uma estratégia efetiva contra o problema e, mesmo após mais de um ano de pandemia, ainda vemos governos usando as mesmas armas utilizadas no início de 2020. Porém, é preciso se conformar com essas adversidades, pois a maioria das pesquisas científicas relacionadas a liderança mostra que todas as pessoas são líderes em potencial. Recentemente, o The Future of Jobs Report do World Economic Forum mostrou que a capacidade de liderar é uma das dez habilidades-chave para o profissional de sucesso do ano de 2025, mesmo que ele não exerça cargo formal de chefia. 

“Por tudo isso, mais do que nunca precisamos desenvolver líderes, principalmente líderes integrais, que atuem a partir de quatro atitudes: propósito, autorresponsabilidade, integridade e humildade, desenvolvendo uma visão de mundo integrativa”, analisa o professor José Vicente. Mas como fazer isso? Primeiramente, para ser um líder integral, é preciso perceber que as pessoas não veem o mundo de forma objetiva, mas por meio de lentes, que são os seus valores e crenças. Alguns desses valores formam aquilo que o World Values Survey definiu como sendo a visão de mundo ou os níveis de consciência, na nomenclatura de Ken Wilber, o criador da abordagem integral. São valores que moldam nossa forma de “ler” o mundo e reagir ao que nos acontece. 

“Nunca tivemos tantas visões de mundo distintas atuando de forma simultânea. A visão de mundo pós-moderna, com processos de pensamento que valorizam a diversidade, a sustentabilidade e o igualitarismo, surgiu para enfrentar os efeitos colaterais da visão de mundo moderna: as crises sociais, ambientais e pessoais”, analisa o professor. Mas mesmo sendo capaz de ao menos atenuar as crises da modernidade na maior parte do mundo, ela também traz novos efeitos colaterais e problemas, as quais necessitam de uma nova visão de mundo para resolver. Entre eles, sua rigidez em querer aplicar as mesmas abordagens independente do contexto. “Para quem passa fome, ter um trabalho para comprar comida é bem mais importante que a igualdade de gênero, por exemplo. Esse tipo de percepção parece não estar ao alcance da visão pós-moderna, causando um recente fortalecimento da visão de mundo tradicional e gerando uma polarização”, avalia o professor. 

Assim, entre as áreas que estão mais carentes de bons líderes integrais pode-se destacar a política. “É a arena onde existe a maior tendência de polarização e, consequentemente, da manifestação dos piores resultados possíveis resultantes dos embates entre as visões de mundo”, observa.

Mas qual seria o segredo para um bom líder, um líder integral? Na opinião de José Vicente, os líderes integrais precisam ter uma visão de mundo integrativa e, para desenvolver essa visão, eles têm de estar conscientes e em contato direto com seus valores e emoções – o termo propagado hoje em dia para definir esse tipo de liderança é o mindfullness, a capacidade de estar totalmente presente para alguma coisa. No caso do líder, presente no ato de liderar. Para fazer isso, o líder pode lançar mão de diversas atividades que treinem a mente, entre elas a prática de meditação ou mindfulness. “A prática do mindfulness desenvolve a capacidade de foco dos líderes, assim como cria mais espaço em suas mentes, promovendo uma gradual des-identificação da pessoa com seus pensamentos e emoções. É ideal para os dias de hoje, em que somos bombardeados com informações novas todos os dias”, explica o professor.

No entanto, não é nada fácil formar líderes integrais. As pessoas que querem chegar nesse patamar profissional precisam entender que não se pode ficar apenas na teoria. É preciso por a mão na massa, trabalhando, exercitando a busca por soluções de problemas reais, saindo da zona de conforto e desenvolvendo novas competências de liderança. “Para desenvolver uma visão de mundo integrativa é preciso abordar os problemas sob uma perspectiva totalmente nova, permitindo resolver aquelas questões que já haviam se tornado crônicos há tempos”, explica. 

O líder precisa delegar? 

Delegar é sempre importante e é a essência do trabalho da liderança. Quando uma pessoa assume essa função ela deixa de fazer parte de suas atividades e passa a ter de fazer com que os outros façam. Entretanto, existem várias formas de fazer isso. 

“Eu posso continuar a definir de forma detalhada como a atividade deve ser feita e apenas pedir aos meus liderados que a implementem. Ou, em um outro extremo, posso dizer qual o resultado que precisamos atingir e dar total autonomia para minha equipe decidir como alcançar aquela meta. Neste ponto, entra a questão contextual e a vantagem do líder com uma visão de mundo integrativa”, explica o professor.

Quando um supervisor lidera uma equipe pouco qualificada em funções estritamente operacionais, dar muita autonomia pode ser prejudicial. “Os operadores irão achar que seu líder não sabe realizar as atividades e por isso delegaram para eles a decisão sobre como realizá-las. Vão achar que ele está se omitindo”. Por outro lado, não dar autonomia em áreas nas quais os liderados são qualificados e têm visões de mundo mais complexas, também pode render resultados inesperados. “Os liderados tenderão a se desengajar, produzir resultados pífios e buscar outras oportunidades”, explica o professor.

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