Tempo de leitura: 6 minutos

Conectar vocação e impacto é um ótimo caminho para quem visa produtividade, felicidade e renda quando alinhado a um plano de carreira com propósito

Você sabe o que é “mundo Vuca” e o que isso tem a ver com plano de carreira? Originado nos EUA, o termo é o apelido dado pelos norte-americanos ao momento em que vivemos. Inicialmente utilizada pelo exército, a sigla “Vuca” descreve volatilidade (volatility), incerteza (uncertainty), complexidade (complexity) e ambiguidade (ambiguity), sentimentos vivenciados pelos militares em situações de guerra. Desde 2010, passou a ser adotada no universo corporativo, que se mostra cada vez mais agressivo, desafiador, competitivo e veloz. Será que eles estão certos?

O tempo verbal correto é: “estavam”. Essa velocidade toda foi berço da substituição de “Vuca” por outra nova nomenclatura, “mundo Bani”. Considerado frágil (brittle) e ansioso (anxious), o cenário atual está atrelado a novas e complexas circunstâncias que ocorrem simultaneamente e em ritmo acelerado. A ideia de que tudo pode sucumbir a qualquer momento nos deixa em alerta constante, sem contar o surgimento da cultura do cancelamento (impulsionada pelas mídias sociais) e a angústia diante do futuro. Saber qual é seu plano de carreira deve ser um projeto que leve em conta tal panorama — mas sem deixar de lado os aspectos pessoais.

Qual é o objetivo do plano de carreira?

Antes de definir um plano de carreira, é crucial compreendermos o contexto do período da História que atravessamos. Diante dele, é possível seguir um plano de carreira pronto e obter sucesso? Claro que sim! Contudo, não sem uma boa dose de transformação. Se, alguns anos atrás, falávamos de “profissional do futuro”, não há dúvidas de que ele já está sendo requisitado hoje em dia. Seja qual for a natureza da profissão, um ponto é unânime: o “novo normal” das organizações requer competências inéditas para o agora.

Nunca se falou tanto em foco, prontidão e propósito com visão de longo prazo como hoje. Vamos conhecer a seguir os elementos capazes de nos inserir no jogo, mostrando ao mercado o que temos de melhor sem deixar de lado o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Como elaborar um plano de carreira?

Para a facilitadora de processos de aprendizagem, Maria Lúcia Simas Paulino, em um mundo não linear e muito menos previsível, a noção de plano de carreira se modificou muito, sendo ainda mais visível pós-pandemia. De acordo com ela, três aspectos fundamentais norteiam essa transição.

Desenvolver um plano de carreira ou uma proposta de valor - Foto Maria Lúcia Simas Paulino - Facilitadora de Processos de Aprendizagem
Maria Lúcia Simas Paulino – Facilitadora de Processos de Aprendizagem

O plano de carreira é um caminho, mas ele não é mais estável e nem tutelado por uma empresa. Pelo contrário, está cada vez mais caracterizado por uma mobilidade diversificada que engloba várias posições, trabalhos, empresas e empreendimentos. Nesse sentido, o emprego deu lugar a um caminho horizontal no qual o cargo pode vir a durar no máximo dois anos — o que, automaticamente, também altera os rumos da ascensão profissional;

Caracterizar a identidade profissional passou a ser pré-requisito. É muito importante que, por mais que a pessoa transite por vários caminhos, ela defina seu propósito. “Na minha trajetória, por exemplo, venho acumulando experiências no intuito de contribuir com o desenvolvimento pessoal e profissional, atuando como uma facilitadora de escolhas de carreiras e caminhos profissionais”;

O propósito é algo físico. O sujeito precisa ter uma visão clara do que quer e assumir o protagonismo. Suas decisões são autônomas, ou seja, tanto o sucesso quanto o fracasso serão atribuídos a ele. Por isso, ao longo do percurso, deve-se desenvolver a capacidade de obter trabalho e renda a qualquer momento. Nos dias atuais, isso é imprescindível;

Não podemos mais afirmar que ainda exista o que chamávamos até então de “plano de carreira pronto”. O conceito foi cedendo espaço a uma visão fixa e de longo prazo (propósito), seguida de ações em prol do crescimento. O advogado não vai, necessariamente, trabalhar apenas na área do Direito, mas seus conhecimentos jurídicos se manterão relevantes. Já o médico, ao montar um consultório próprio, estará assumindo sua veia empreendedora.

De acordo com Paulino, a relação causal entre a formação e a função que será executada nos anos seguintes não existe mais. “O que norteará o plano de carreira será ter um propósito”, diz, lembrando que a mandala Ikigai pode ajudar nessa busca e unir vocação e impacto.

Composta de quatro círculos que se sobrepõem, traz à tona as seguintes reflexões:

O que amo fazer?
O que posso fazer bem?
O que posso ser pago para fazer?
Do que o mundo precisa?

Plano de carreira ou proposta de valor?

Estamos na era da inovação e ela é volátil e imprevisível. Para partir rumo ao autoconhecimento ou se reinventar, existem ferramentas que podem ser excelentes aliadas: é o caso do Business Model You. Trata-se de um chamado para que as pessoas desenvolvam novas percepções a fim de entender diversas demandas recentes, como a vida em rede, e entender com o quê cada um de nós pode contribuir para o todo. “O BMY é fundamental para o desenvolvimento, auxiliando o indivíduo de forma simples e intuitiva. No entanto, exige pesquisa aprofundada”, orienta.

Antes de atingir o público-alvo, passamos pela construção de uma proposta de valor. Como nos explica Paulino, que também é psicóloga e mestra em administração, o primeiro passo é conhecer quem se almeja atingir. “Quem são meus clientes? Como lidarei com suas dores? Aqui, entende-se como ‘cliente’ a empresa na qual se atua e o interesse em manter-se nela ou, ainda, a persona com quem queremos falar para alavancar um negócio”, detalha.

Além disso, ter foco e prontidão pode fazer toda a diferença. Nos dias atuais e diante de tantos estímulos, a maioria de nós ainda precisa lidar com o Fear Of Missing Out (medo de ficar de fora), mais conhecido como Fomo.

“A tendência é nos perdermos. Então, ao termos consciência do que estamos fazendo e de onde queremos chegar, baseados em experiências significativas, passamos a entregar valor ao mercado — seja como funcionário, empreendedor ou até mesmo freelancer”, explica. Maria Lúcia prossegue, sem deixar de mencionar a relevância do talento. “Ele é quem irá nortear a proposta de valor, levando-nos a oferecer o que temos de melhor e, consequentemente, gostamos de fazer. Essa conexão gera produtividade, felicidade e renda.”

Educação contínua: condição sine qua non

Como não sabemos o que irá acontecer daqui a seis meses, tais propostas acabam sendo fixadas apenas do ponto de vista comportamental, com perspectivas de curto-prazo. “Normalmente, em torno de um ano”, prevê a especialista em gestão de pessoas. Para ela, somos caracterizados pela capacidade de aprendizagem e, para conseguirmos trilhar o mundo hoje e no futuro, é fundamental investirmos na nossa especialização. “Na prática, significa ter o propósito claro, mas com a versatilidade de mudar uma meta a qualquer tempo, agregando novos conhecimentos, oferecendo novos produtos e aumentando a capacidade de inovação.”

Desde pós-graduações e cursos até trilhas de aprendizagem individual e coaching: tudo que venha agregar valor à carreira é importante. “Lembrando que aprendizagem é ‘botar pra fora’. Assim, não se trata de apenas deter a informação, é preciso aplicá-la em soluções reais para o mercado, para o outro e para o mundo”, completa.

Em termos de áreas promissoras pós-pandemia, Maria Lúcia reforça que todas têm seu lugar, sobretudo se houver constante investimento em capacitação. “O campo da saúde mental está em alta, assim como aqueles que privilegiam o home office e os projetos. Não à toa observamos o crescimento vertiginoso das start-ups. Estamos diante de uma nova economia com mentalidade de serviços”, analisa. Obviamente, a evolução digital figura como requisito intrínseco. “Oportunidades existem. Basta estar atento, com um bom propósito e uma proposta de valor focada no seu público-alvo e nicho. E, claro, estudar sempre”, conclui.

Não é possível comentar.